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Batedores de açaí em Belém: o desafio de mapear uma atividade enraizada a partir de dados oficiais

  • 20 de fev.
  • 4 min de leitura

Por Bianca Farias, Fabrício Ferreira e Vitória Soares.


Belém, 22/09/2025 - O estudo realizado buscou mapear os estabelecimentos que atuam primariamente na comercialização de polpa de açaí na Região Metropolitana de Belém (RMB) no estado do Pará, composta pelos municípios: Belém, Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa Bárbara do Pará, Santa Izabel do Pará, Castanhal e Barcarena. Para isso, foram utilizadas duas bases de dados públicas: o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), da Receita Federal, e o Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos (CNEFE), do IBGE.


Os resultados apontam uma grande discrepância entre o número de estabelecimentos registrados formalmente e aqueles identificados fisicamente no território, o que evidencia o alto grau de informalidade que já é peculiar da atividade.


Apenas 317 estabelecimentos apareceram no CNPJ com a palavra “açaí” no nome fantasia. Esses registros correspondem a empresas formalizadas, com inscrição ativa na Receita Federal. Já na base do CNEFE — que registra endereços de estabelecimentos independentemente de sua situação fiscal, com base no Censo Demográfico de 2022 — foram identificados 4.713 locais descritos como “batedores de açaí”.


Isso significa que pelo menos 93% dos pontos de extração e venda de polpa de açaí na RMB não possuem registro formal como empresa. A diferença entre as duas bases não se deve apenas a limitações metodológicas, mas reflete uma característica estrutural do setor: seu enraizamento em relações sociais, culturais e territoriais que ultrapassam as constrições da formalidade econômica.


Além disso, o estudo destacou uma limitação importante na classificação oficial das atividades econômicas. A Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) não possui uma categoria específica para a atividade de despolpamento e comercialização de açaí, mesmo que sua participação na vida social da região date há milênios e se demonstre cada vez mais articulada com a economia global. Como consequência, os poucos estabelecimentos formalizados costumam se enquadrar em categorias genéricas, como “comércio varejista de sucos”, “refeição por quilo” ou até “beneficiamento de castanha”, o que dificulta ainda mais a identificação precisa desses agentes em bases administrativas.


O CNEFE, por sua vez, não traz informações econômicas, restringindo-se a dados de localização, como nome do logradouro, número e coordenadas geográficas. Mesmo assim, permitiu mapear a distribuição territorial dos batedores. Na cidade de Belém, os bairros com maior concentração são Guamá (247), Jurunas (199), Tapanã (173), Terra Firme (120) e Condor (101). Esses locais coincidem com áreas de alta densidade populacional e onde há forte relação entre demanda local e presença de pontos de venda.


É importante ressaltar que, apesar de mais abrangente, o CNEFE também tem limitações. O Censo pode não capturar estabelecimentos muito informais ou temporários. Assim, mesmo os 4.713 registros identificados podem representar apenas uma parte do total real.


O cruzamento entre CNPJ e CNEFE revela que a economia do açaí em Belém é amplamente informal e escapa das estatísticas tradicionais baseadas em registros fiscais.  A atividade requer métricas específicas ou próprias para fins de mensuração e reconhecimento do setor, ou ainda uma atualização na classificação das atividades econômicas.


As singularidades do açaí residem na sua essência ante-mercadoria: antes de produto incorporado em cadeia produtiva mundial, o açaí e seu manejo carregam consigo o conhecimento tradicional acumulado que intermedia a relação natureza-consumo.



Fonte: Baseado no Working Paper nº 04: "Economia do Açaí em Belém: Mapeamento, Estrutura e o Desafio dos Dados", de Bianca Farias, Fabrício Ferreira e Vitória Soares.


Para Onde Vai o Açaí do Pará? Estudo Mapeia Mercado Global e Aponta Falha Crítica nos Dados Oficiais


Uma nova análise sobre os dados de comércio exterior revela a trajetória de expansão do açaí paraense no mercado global. O estudo, que cobriu o período de 2019 a 2025, mapeou os principais destinos do produto e identificou um crescimento expressivo, mas também expôs uma barreira fundamental nos dados públicos que impede uma compreensão completa do cenário.


A análise dos fluxos de exportação confirma a posição estratégica dos produtos derivados do açaí. Embora os códigos de classificação do comércio exterior (SH6) não isolem o fruto, enquadrando-o em categorias genéricas como "Outras frutas congeladas" (081190), a metodologia da pesquisa definiu uma cesta de dez códigos que, historicamente e no contexto regional do Pará, representam predominantemente as transações de açaí. Dentro deste universo metodologicamente definido, os produtos associados ao açaí são os principais, representando a maior parte do volume comercializado para o exterior em comparação com outros itens da mesma cesta.


Mercados: Um Líder Consolidado e Novos Atores em Aceleração


A análise dos países de destino aponta para uma estrutura de mercado com duas dinâmicas distintas. De um lado, os Estados Unidos consolidam-se como o principal importador do açaí paraense, mantendo uma demanda elevada e estável ao longo de todo o período, o que caracteriza um mercado maduro.


Por outro lado, os dados mostram que a expansão mais acelerada vem de outros continentes. Países Baixos (Holanda), Japão e Singapura apresentam as maiores taxas médias de crescimento. Este movimento indica uma diversificação gradual dos canais de exportação e a penetração do produto em novos mercados na Europa e na Ásia, que demonstram um interesse crescente pelo açaí.


O "Ponto Cego" dos Dados: Sabemos o Estado, mas não a Cidade de Origem


Apesar da clareza sobre os destinos internacionais, a pesquisa encontrou uma limitação intransponível nos dados públicos: é impossível rastrear de qual município paraense o açaí é efetivamente exportado.


A plataforma de dados do governo federal, Comex Stat, opera com filtros que são mutuamente excludentes. Para analisar as exportações de uma cidade específica, como Belém, o sistema agrupa o açaí em uma categoria genérica de "frutas". Inversamente, ao usar o código específico do produto para isolar o açaí, a informação sobre o município de origem desaparece, restringindo a análise geográfica apenas ao nível estadual.


Após consulta formal ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), confirmou-se que essa limitação é uma decisão metodológica para proteger o sigilo fiscal das empresas exportadoras. Embora a justificativa seja legal, o resultado prático é a criação de um "ponto cego" que impede a mensuração do papel de polos de processamento como Belém na cadeia de exportação.


A conclusão do estudo é que, embora o cenário internacional seja de crescimento, a falta de dados granulares sobre a origem municipal do produto exportado dificulta o planejamento de políticas públicas e de investimentos direcionados. Compreender a fundo a geografia da exportação é um passo fundamental para apoiar de forma mais eficaz toda a complexa rede de agentes que movem a economia do açaí, desde as comunidades produtoras até o mercado global.


 
 

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